Seja bem-vindo! Hoje é

CIAEE: Antropólogo defende museus mais dinâmicos para abarcar a atualização de significados na cultura indígena


Para o antropólogo João Pacheco de Oliveira, do Museu Nacional, seria importante que os museus promovessem uma interlocução com os indígenas para que sejam lançados olhares atuais sobre os objetos etnológicos expostos e a classificação feita anteriormente por etnólogos e museólogos, de uma realidade de séculos passados, contemple também os significados que os indígenas dão a esses objetos atualmente.

A conferência "O que são objetos étnicos" abriu na manhã de hoje (11) o I Congresso Iberoamericano de Arqueologia, Etnologia e Etno-história (CIAEE) que será realizado até 14 de maio no Teatro Municipal pelo Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história (ETNOLAB), da Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).

A constatação foi produzida a partir de estudos em que Dr. João Manuel Pacheco levou aos índios Tikuna, moradores da região do Alto Solimões, no Amazonas, um livro do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, com fotos feitas no início do século XVIII de máscaras indígenas, para ouvir o significado que os índios atribuíam as peças para então comparar com a classificação e significado dado a peça pelo livro.

A experiência mostrou várias divergências, algumas máscaras que para o naturalista representavam um animal, como macaco ou onça, para os Tikuna eram seres humanos, ou no caso de uma máscara classificada como um morcego, por exemplo, para os indígenas era um mamífero de grande porte, como uma onça ou um cachorro do mato.

Entre essas divergências está a máscara que no livro era uma obra sem significado específico, fruto do capricho e entusiasmo, mas que para os Tikuna causava surpresa e terror, já que representada um espírito perigoso, que saia de baixo da terra enquanto as pessoas estavam dançando bêbadas e soprava em cima delas causando o início de brigas, agressões com cortes, até a morte.

De acordo com o João Pacheco, a cultura indígena não é estática e simplista, mas dinâmica, sempre em recriação e reconstrução ininterrupta. Portanto, o museu precisa enfrentar esse desafio e ao invés de só deixar as máscaras (foco de sua pesquisa), por exemplo, armazenadas, imóveis nas vitrines, fazer esse contato entre as peças e os índios para que eles ajam e criem novos significados a essas peças, talvez fazendo até com que elas (máscaras) possam voltar a se tornar seres vivos e produzir novos sentidos.

“Temos que entender que o tempo deles não é como o nosso, cronológico, são outros tempos históricos, eles vivem e atualizam conexões complexas”, disse explicando que ao apresentar as fotos das máscaras de dois séculos atrás, elas ainda tinham ligações com a vivência atual. Mesmo que estivessem além de sua experiência cotidiana, eles estabeleciam diálogos com as peças, reconheciam e refletiam sobre seu significado, lembravam de relatos, formavam fontes com imaginários universalistas e não de acordo com sistemas classificatórios.

Para eles esses objetos não se cristalizam e se reproduzem de forma mecânica e repetitiva, mas de forma incessante e atual, contribuindo no caso do imaginário religioso, por exemplo, para a manutenção da moralidade e protagonismo político e assim colaborando para sua forma de existência acontecer ainda hoje.

João Pacheco de Oliveira é graduado em Ciências Políticas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1972), mestre em Antropologia pela Universidade de Brasília (1977) e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Teoria Antropológica, atuando principalmente nos seguintes temas: Indios Tikuna, Pesquisa Antropológica, Etnicidade, Etnologia Indígena, Amazônia e Identidade Nacional.



Mais informações

Sobre o Congresso Iberoamericano de Arqueologia, Etnologia e Etno-história (CIAEE): http://www.ufgd.edu.br/eventos/ciaee/

Fonte:ufgd.edu.br

Nenhum comentário: