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Aldeia Urbana Marçal de Souza

Depois de 13 anos de luta em busca da inclusão social do povo indígena da etnia Terena, a Aldeia Urbana Marçal de Souza tem motivos para comemorar o Dia do Índio, em 19 de abril. Aproximadamente oito mil índios vivem, hoje, em Campo Grande. Pioneira, a primeira aldeia urbana do país, localizada no bairro Tiradentes, concentra 700 pessoas. "Motivos não faltam para comemorar a data. Quando chegamos nesses hectares de terra, corremos contra o tempo para reunir nosso povo, que lutava para sobreviver na cidade, muitos sem ter o que comer. Hoje, temos moradia digna, escola, lazer, tudo isso sem fugir da nossa cultura indígena", conta a cacique da aldeia, Enir Bezerra, 54 anos.
Enir Bezerra, primeira cacique mulher de um grupo indígena no Estado, informa que antes da ocupação da área, transformada na primeira aldeia urbana da Capital, foi realizado um levantamento para identificar e localizar as famílias Terena que viviam em Campo Grande. Segundo ela, a maioria dessas famílias encontrava-se em condições precárias de moradia.
"Nosso povo saiu das aldeias em busca de trabalho, com um sonho de garantir melhor educação para os filhos. Acontece que, ao chegar aqui, depararam com uma realidade contrária. Eles não tinham qualificação, por isso não conseguiam emprego. Então, não podiam pagar o aluguel. Já que a maioria não possuía, ao menos, um registro de nascimento, viviam como fantasmas, em condições de verdadeira miséria", relata Enir.
A escolha da primeira cacique mulher do povo Terena é motivo de comemoração para a comunidade Marçal de Souza. "Até hoje, não existia uma mulher na frente da aldeia em Mato Grosso do Sul. Sinto-me honrada com esse título. Essa conquista está ligada à igualdade da mulher. Nossa comunidade é uma das mais fortalecidas do país. Não é à toa que nossa aldeia é referência nacional e, até mesmo, fora do país", comentou Enir Bezerra, ao lembrar que em 2006, a Prefeitura recebeu o prêmio Selo de Mérito de Interesse Social com o projeto da Aldeia Indígena Urbana Marçal de Souza.
Emocionada, a indígena conta que ao chegar a Capital, no dia 9 de junho de 1995, encontrou famílias indígenas em situações de exploração. "Tivemos casos em que o proprietário da casa apreendeu todos os pertences da família por conta de R$ 20 que faltou para pagar o aluguel. Encontramos mulheres morando em brejos, favelas. Crianças morriam por causa das más condições de habitação. Morriam de anemia profunda. Um absurdo. Esses são apenas alguns exemplos de como nosso povo vivia".
De acordo com a cacique Terena, num primeiro momento 20 famílias saíram das aldeias para Campo Grande. Hoje, a aldeia concentra 170 famílias. "Chegamos às quatro horas da manhã, montamos barracos cobertos por lonas, onde sobrevivemos por um tempo. Ao olhar nossas casas, cujo projeto da Prefeitura preservou a característica indígena, é com orgulho que afirmamos 'minha casa'", desabafa o indígena Itamar Jorge, 38 anos. Ele conta que no dia posterior à ocupação, a notícia se espalhou, resultando na chegada de mais famílias até formar essa grande família que é hoje a Aldeia Urbana Marçal de Souza.
Reflexão - Itamar afirma que o processo de miscigenação, as situações conflitivas que envolveram o período desde a ocupação da aldeia urbana e as conseqüências para os dias atuais valem uma reflexão nesta semana, em que as atenções estão voltadas para a cultura indígena. "Se somarmos todos os índios de diversas etnias que vivem atualmente em Mato Grosso do Sul, esse número ultrapassa 65 mil pessoas. O último senso realizado pela Prefeitura revelou que cinco mil índios viviam em Campo Grande até o ano de 2000. Esse número deve chegar a oito mil. Podemos afirmar que hoje, o povo Terena faz parte da sociedade campo-grandense".
O indígena lembra, ainda, que a oportunidade das crianças aprenderem a língua Terena, oferecida como atividade extra curricular pela Escola Municipal Sulivan Silvestre Oliveira, garante a fusão de raças e culturas entre os povos. "A alfabetização materna permite o resgate da nossa língua. Quem fala a língua vai continuar. Quem não sabe vai aprender e isso garante que a cultura Terena não se perca", analisa Itamar.
Bezerra adiantou que no próximo domingo, 19 de abril, Dia do Índio, três ônibus sairão da Aldeia Marçal de Souza com destino às aldeias espalhadas na área rural, onde as famílias se reúnem para cumprir o ritual, realizado todos os anos, como forma de agradecimento pelas conquistas do povo Terena. "Convidamos toda população indígena para comemorar essa data voltada para nosso povo. Nossa cultura está fortalecida e motivos não faltam para confraternizarmos", argumentou.