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"Não existem diferenças entre o desempenho de brancos e negros cotistas"

O título é uma frase da pedagoga Maria José de Jesus Alves Cordeiro,elaborada depois de um estudo que analisou o desempenho da primeira turma de cotistas da UEMS, do vestibular à formatura, realizado em seu doutoramento em Educação-Cirrículo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora Maju, como e mais conhecida no meio acadêmico, atuou como Pró-reitora de Ensino na UEMS de 200 a 2005, quando coordenou a implantação, nesta universidade, das leis estaduais que dispõe sobre a reserva de 10% das vagas em cursos universitários para indígenas (n 2.589/2002) e 20% para negros oriundos da escola pública(n 2.605/2003).
Em 2003, as leis foram regulamentadas mediante a discusão com as lideranças do movimento negro, indígenas, comunidade acadêmica e sociedade, resultando no primeiro vestibular pelo sistema de cotas. E, para avaliar o processo de sua implementação e resultados , Maju realizou uma pesquisa de Doutorado, cujos dados contrariam as afirmações de que o acesso pelas cotas derrubaria a qualidade de ensino e acirraria conflitos sociais. Segundo a pesquisadora , os resultados"melhoraram a qualidade de ensino, pois obrigaram os mestres e doutores a olhar ao seu redor e a conviver com a diversidade".
Sua tese,"Negros e Indígenas cotistas da Universidade Estadual de Mato Grosso do sul:desempenho acadêmico do ingresso à conclusão de curso", está disponível na biblioteca da UEMS.
Como foi desenvolvida a sua pesquisa?
Foram pesquisados os 37 alunos da UEMS, analisando-se e comparando-se o desempenho de brancos, negros e indígenas desde os dados dos vestibulares de 2003, 2004, 2005 e 2006, bem como as médias finais dos anos letivos de 2004, 2005, 2006 e 2007, ano em que os primeiros cotistas concluíram os cursos de quatro anos. Também foram aplicados questionários para a identificação do perfil dos cotistas e suas dificuldades. No primeiro vestibular pelo sistema de cota forma matriculados 1..337 brancos, 236 negros e 67 indígenas. Ao final dos quatro anos , foram aprovados 540 brancos (40,4% dos ingressantes), 71 negros(28,8%) e 9 indígenas(13,9% dos ingressantes).
Que dados foram identificados por trás desses números?
Identificamos que não há diferença relevante de desempenho entre brancos e negros, na trajetória acadêmica. O que existem são diferenças pontuais em alguns cursose séries que favorecem ora brancos, ora negros. também identificamos que o desempenho no vestibular não serve de parâmetro paraq avaliar o desenvolvimento dos alunos da UEMS. Em muitos cursos, os cotistas negros que entraram com notas menores que os candidatos brancos demonstraram maior rendimento na disciplinas. Analizandoo rendimento com a base nas médias acima de 6,0, os dados apontam , ainda, que os negros tiveram melhores resultados nas aréas de Ciências Exatas e Tecnológicas e os indígenas na de Ciências Humanas e Sociais. No entanto, a diferença entre o escores é mínima, tanto que, quando somamos os resultados finais das três áreas, os brancos, devido à diferença maior na área de Ciências Exatas e Tecnológicas, ficam com um percentual final de rendimento de 0,02 superior aos negros. A média geral de desempenho dos alunos da UEMS é de 56,1% de aproveitamento da disciplinas.
E quanto aos indígenas?
Quanto a este grupo, alto índice de abandono é o que mais sobressai na pesquisa e se sobrepõe em importância aos resultados de seu desempenho acadêmico. Dentre as dificuldades apontadas por eles estão a fraca formação geral recebida no essino médio; desconhecimento total sobre projetos , parcial ou nenhum conhecimento sobre informática, falta de tempo para a dedicação de estudos, ocasionada pelo trabalho que exercem nos demai períodos, a localização distante das aldeias e as dificuldades linguisticas(falta de domínio da língua portuguesa). Isso gera uma evasão muito grande, e aqueles que permanecem têm registrado muitas reprovações e dependências , impedindo a conclusão do curso juntamente com os outros alunos da turma. Sob o olhar meritocrático, isso pode ser considerado insucesso; no entanto, do ponto de vista político e social, presença de indígenas lutando para se formar, mesmo utilizando mais tempo , já é um sucesso.Investigar as causas da evasão no ensino superior, principalmente a indígena, é um princípio vital para a criação e realização de políticas educacionais voltadas aos povos indígenas no ensino superior e demais grupos étnicos. Este estudo já foi iniciado na UEMS, cuja pesquisa esta sob minha coordenação.
Então podemos afirmar que o sistema de cotas é válido?
A conclusão aponta resultados que justificam a política de cotas como sucesso do ponto de vista da inclusão, do combate à desigualdade, ao preconceito e à discriminação, contribuindo para minorar a situação do racismo e da exclusão social existente no Brasil. O sucesso também se dá do ponto de vista meritocrático, no momento em que muitos negros cotistas, independentemente da nota do vestibular, sobreviveram acadêmicamente às dificuldades impostaspelo aspecto financeiros, sociais, e discriminatórios, chegando à conclusão do curso ao mesmo tempo em que os demais e com resultados semelhantes. Pode der que a política de cotas não seja a melhor solução para combater a exclusão social e cultural, mas é a única política adotada até agora com bons resultados para promover a reparação, compensação e inclusão de negros e indígenas alijados do processo de aquisição do conhecimento durante toda a história do país.

fonte: Jornal da UEMS/outubro de 2008, pag.03

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